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terça-feira, 15 de julho de 2008






LUMPY GRAVY - A PIRAÇÃO

“Lumpy Gravy” é o quarto álbum de Frank Zappa, lançado em 1968, e verdadeiramente o primeiro com o seu nome estampado na capa, pois os três primeiros é como Mothers of Invention. A ironia e o cinismo desse que é o maior gênio da música pop em todos os seus tempos também está estampada já na capa: Franz Vincent Zappa conduz Lumpy Gravy, uma peça curiosamente inconsistente que começou como uma faixa para ballet, mas que certamente não deu certo. O nome da orquestra que ele conduz é muito demais demasiado:Abnunceals Emuukha Eletric Symphony Orchestra & Chorus.

Desde 1966 Zappa, com o lançamento do conceitual “Freak Out!”, não deixou pedra sobre pedra na supremacia americana pública e privada. Ele meteu o dedo no orgulho racista americano, na sede de consumo, no falso moralismo, na insolência e na prepotência bélica, econômica e política. Ele satirizou a sociedade de todas as formas, foi politicamente incorreto, fez humor negro, achincalhou os tabus sexuais, carnavalizou os dogmas de qualquer religião, revirou ao avesso os bons costumes e travestiu os valores supremos da cultura americana, através de uma crítica corrosiva, de uma linguagem abusiva e de uma música simplesmente única.

Depois de abalar as estruturas íntimas da família americana com o satírico e impagável “Absolutely Free”, em 67, e depois de chocar o mundinho pop com a mais completa crítica, lúcida e escatológica dos anos 60, a partir da lendária capa de “We’re Only In It For The Money” (Só Estamos Nisso Pelo Dinheiro), em 68, em que ele satiriza de forma veemente a capa do disco Sargent Pepper... dos Beatles - até então uma unanimidade intocável - com uma montagem genial cheia de citações e intertextualidades bizarras, além da acusação histórica no título de que os pimpolhos de Liverpool eram armação do mercado, Frank Zappa lança esse inquietante e incompreendido disco de vanguarda. No encarte do disco, vestido com fraque e cartola, com ar cínico, através de um balãozinho de quadrinho Zappa afirma que “Lumpy Gravy” é a fase dois de “We’re Only In It For The Money”.

Zappa aliou à sua formação erudita, de maestro, as informações obtidas da música negra americana; do blues; do rock; do gospel; do espiritual; do pop; das trilhas de filmes e desenhos animados; dos jingles; da surf music; do doo-wopping,; do jazz,; da música concreta e da música contemporânea de câmara; e criou o seu vocabulário musical, com orquestrações inusitadas, vocais esquisitos, experimentalismos diversos, diálogos e instrumentações bizarras e composições geniais. Tudo isso está em “Lumpy Gravy”. Em doses concentradas e vários outros aspectos até então nunca tentados no mundo pop.

“Lumpy Gravy” é então uma sinfonia (!?) dividida em duas partes, subdivididas em segmentos intitulados, como se fossem faixas, mas com execução integral, sem espaços, que no vinil correspondem aos lados um e dois. Uma orquestra filarmônica se junta a uma banda com baixo, bateria e guitarra, para tocar uma peça descontínua e fragmentada, cheia de experiências de música concreta com fitas magnéticas e diálogos que misturam cinismo, escatologia e nonsense.

Algumas partes instrumentais têm uma orquestra tocando fragmentos de musak, completamente diatônico, outras têm surf music, rag-time, trilha de desenhos e jingles; já em outros fragmentos a música é atonal e experimental, com ruídos e intervenções diversas. Na primeira parte da peça a melodia e a estrutura harmônica do fragmento que abre a primeira parte: “The way i see it, Harry”, são descontruídas em fragmentos menores, que voltam ao longo da parte como citações aleatórias. Uma verdadeira viagem ao submundo das vanguardas, mais estranhamento do que isso, impossível.

A segunda parte começa com um diálogo bizarro e no meio dos falantes alguém introduz de forma fragmentada a teoria de Zappa sobre a “Big Note”, que segundo ele existe apenas uma única grande nota musical que contém todas as vibrações. Depois do diálogo entra uma orquestração de música clássica contemporânea, com uns compassos lunáticos e fragmentos de melodias em meio a ruídos. A segunda parte é encerrada com “Take your clothes off”, uma espécie de surf music, com uma das melodias zappeiras mais cínicas de todos os tempos, com direito a um vocalzinho simplesmente cretino e por isso mesmo inesquecível.

De fato essa viagem estética já havia sido anunciada em “We’re Only In It For The Money”, nas faixas “Are you hung up”, “Nasal retentive calliope music” e “The chrome plated megaphone of destiny”. Mas é em “Lumpy Gravy” que o bicho pega. Para ouvir esse disco é necessário, como sugere a última música, tirar a roupa dos preconceitos fora e se preparar inteiramente para o estranhamento das vanguardas musicais. Estética é o nome desse disco. Concepção musical a milhões de quilômetros de distância do mercado fonográfico. É um disco para poucos, mas que significa muito para a história da música contemporânea. Escute e verá.

2 comentários:

lupeu lacerda disse...

sem entender picas de zappa
só venho lhe dizer:
meu camarada, essa é a sua praia.
nunca vi você tão solto, peduvido é uma puta revista. e o lobisomem sabe de verdade do que fala.
um grande abraço mano.
hasta la vista.

Marcos Vinícius Leonel disse...

Valeu The Lupas
é massa ter você como leitor, vc sabe disso.

vlw poeta