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segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Históricos

Johnny Winter - Captured Live!
para a eternidade

Em uma lendária entrevista para a revista Guitar Player, respondendo sobre equipamento e regulagens, Johnny Winter respondeu que não tinha segredos, colocava todos os botões da guitarra e do amplificador no dez e metia a mão, sem olhar para trás. Esse disco histórico é uma prova disso. São seis faixas antológicas de pura adrenalina de hard blues ao vivo. Esse é um disco para quem acredita em guitar heroes.

Se você é daqueles ou daquelas que torce o nariz para longos solos de guitarra em volume máximo, e acha que isso é pura masturbação musical e que a guitarra é só um detalhe para o rock, então passe longe desse disco. Ou se quiser siga o meu conselho: compre esse registro monumental, mude os seus conceitos e perceba que existe vida inteligente e sentimento musical nesses solos que foram capturados ao vivo, sem retoques ou enganações.

Esse disco contém faixas gravadas em três espetáculos diferentes, Swing Auditorium, San Diego Sports Arena e Oakland Coliseum, em 1976. Não existem faixas ruins nesse disco, cada uma é melhor do que a outra. Esse é um repertório impecável, simplesmente matador. O guitarrista texano está em sua fase divina de guitarra “Firebird”, da Gibson, com um leve toque de phase em seu timbre lotado de médios e amplificadores Marshall no talo. Johnny Winter desfila o seu leque de escalas pentatônicas, menores e de blues em velocidade estonteante, completamente distante dos malabarismos circenses dos fritadores.

A famosa base de Johnny Winter nos anos 70, em que ele se aproxima bastante do rock em seu fraseado blueseiro, está presente como uma verdadeira usina de força. Floyd Redford, com uma Gibson 335, semi-acústica, segura a base e faz solos e duelos precisos. A cozinha é formada por Randy Jo Hobbs no baixo e Richards Hughes na bateria, de entrosamento perfeito e peso puro, essa é uma dupla dos sonhos de qualquer guitarrista solo. O resultado dessa química é de impressionar qualquer um. As apresentações seguem a linha do início dos anos 70, com longos improvisos no gás total, sem deixar o público respirar.

O disco abre com “Bonie Moronie”, com uma introdução de Johnny Winter sozinho na guitarra. Que ele é albino todos sabem. Que ele é negro de alma e voz todos sabem, mas essa primeira faixa serve para o ouvinte saber exatamente com quantas notas se faz o autêntico hard blues. Melhor abertura impossível. No segundo solo dessa música Johnny mostra boa parte dos seus truques, aprendidos em bares e clubes noturnos. O ouvinte já é sacudido em sua quinta geração.

“Roll with me”, a segunda faixa, é típica dos anos 70. O groove dessa música é irresistível, hipnotizante. É o solo mais rockeiro dessa infinidade de solos. Praticamente esse é o song book dos links de Johnny Winter, bands, doublestops, oitavas e ligados diversos. “Rock and roll people” faz o público delirar com seu andamento rápido e pegada alucinada do albino. As frases de guitarra são rápidas e poderosas. Esse é o chamado power blues, o som solta faíscas. Nessa faixa você vai entender porque ele é considerado um dos maiores guitarristas de todos os tempos.

“It’s all over now” já abre com um solo mágico de Johnny Winter, para logo em seguida a banda entrar em uma pegada meio western e meio boogie. Essa faixa tem um dos melhores duelos entre o texano e Floyd Redford. A base que Johnny Winter faz quando Floyd está solando é imperdível. A essas alturas tudo já está pegando fogo. É quando Johnny Winter resolve usar o slide na música “Highway 61 revisited”.

Depois que você ouvir essa versão para o hit mágico do feiticeiro Bob Dylan, você vai pensar dez vezes antes de querer tocar slide guitar. O momento em que Johnny Winter segura a onda solando com slide, apenas com o groove da bateria, é clássico, é antológico, é seminal, é aula pura. Esse momento é pra você aprender a verdadeira função de uma guitarra solo. Ele ainda abre espaço para um solo generoso de Floyd Redford.

“Sweet Papa John” fecha o disco com toda a classe de um grande mestre do blues. Também começa com Johnny Winter sozinho, destruindo a guitarra, depois a banda entra em um blues de andamento lento, tradicional. É mais uma aula de slide. É pra fazer com que esse se torne um dos registros ao vivo mais importantes da sobrenatural década de 70. cara, se você ainda não conhece esse disco, você é simplesmente um vacilão.

2 comentários:

Éder disse...

Esse album é único, magistral, obrigatório para todo fã de blues.

vitor disse...

Caro Marcos
Parábens por seu trabalho!
Este disco Captured Live,(LP de Vinil), chegou as minhas mãos quando eu era muito jovem. Na época soavam em quase todas as rádios Tupiniquins baladinhas românticas, muito boas por sinal, mas nada que se comparasse à música extra-terrena de Mr. Winter...Ele tocou com Hendrix.
Somos poucos privilegiados. Um abraço.